terça-feira, 26 de julho de 2016

Capítulo Dois

Ashley havia deixado a chave da sua casa com os vizinhos, pois tanto ela como Niki estariam no trabalho quando Vanessa chegasse. Ela havia sido instruída a bater na porta de Signora DeFiore, apresentar-se e pegar a chave.
— Buon giorno, Signora DeFiore? — Vanessa começou, quando a porta do vizinho se abriu e uma mulher bonita, de meia-idade sorriu calorosamente para ela. Ela estava prestes a se apresentar e pedir a chave, foi envolvida em um forte abraço pela signora, que beijou suas faces, duas vezes, e começou um discurso de como estava contente em conhecer a prima de Ashley, enquanto a conduzia para dentro e começava a colocar a  mesa para o almoço. Vanessa foi pega de surpresa, pois as boas vindas de um completo estranho não era algo que os vizinhos fariam. Ou alguém em Londres, para ser bem sincera.
Uma hora, uma deliciosa refeição e duas xícaras de café depois, Vanessa saiu da casa, segurando a chave na mão. Em circunstâncias diferentes, ela poderia ter ficado irritada com a familiaridade da mulher, mas ela tinha sido tão sincera em sua hospitalidade que Stella não podia sentir nada, exceto amparada.
Abrindo a porta da casa de Ashley e Niki, ela foi direto até a sala de estar. A casa foi recentemente construída e era bastante moderna - a sala de estar era enorme, decorada em tons pasteis, com muita luz que vinham das inúmeras janelas. Stella puxou a mala para dentro e fechou a porta atrás dela. Na parede oposta à sua esquerda havia uma enorme TV de tela plana montada na parede, e na frente dela havia vários sofás, poltronas e pufes em diferentes formas e tamanhos. Elas pareciam muito confortáveis e acolhedoras.
À direita estava a porta que dava para a cozinha - que estava aberta e Vanessa podia ver os armários brancos e uma enorme mesa de jantar. Bem em frente dela, no entanto, era o que ela estava mais interessada em ver - as enormes portas francesas que conduziam ao jardim. Vanessa deu um passo nessa direção e, adivinha? - Havia uma piscina, espreguiçadeiras e uma churrasqueira lá fora. Virando-se, um pedaço de papel branco na mesa de café chamou a sua atenção e ela foi pegá-lo. Era um bilhete de Ashley.
Bem-vinda!
Sinta-se em casa - seu quarto é no andar de cima, a segunda porta  do lado esquerdo. Organize as suas coisas, relaxe, tome um banho - o que quiser. Estarei de volta em torno das 4. Mal posso esperar para vê-la!
P.S. Esse chip é para você. Coloque em seu telefone e eu te ligo assim que puder.
Te amo!
Ashley

Vanessa colocou o chip no seu telefone e mandou uma mensagem para sua mãe com seu novo número italiano. Depois, ela fez como instruído - arrastou a mala até as escadas e encontrou seu quarto. Ele era bastante espaçoso, com uma cama grande no meio. Havia também um enorme guarda-roupa, uma mesa e um par de pufes  espalhados. E o melhor de tudo - era uma suíte. Vanessa sorriu e se jogou sobre a cama.
Uma hora mais tarde, ela tinha organizado suas coisas, tirado a calça jeans, tomado um banho, usava um vestido amarelo e branco, e chinelos, e ainda tinha três horas até que Ashley chegasse em casa. Ela se olhava no espelho, enquanto tentava  domar seu cabelo longo loiro-escuro em um rabo de cavalo, Stella sentiu que não tinha estado tão bem há muito tempo. Ela estava radiante de felicidade e havia paz em seus olhos cinzentos que não estavam lá apenas um dia atrás.
O sol estava brilhando lá fora e não havia uma única nuvem no céu. Como uma típica londrina, isso apenas a fez se sentir mal em ficar sentada dentro de casa, quando o tempo estava tão bom, então ela pegou seu guia turístico de Gênova, e partiu para explorar a cidade por conta própria.
Corso Itália era um passeio de dois quilômetros, e estava a dez minutos a pé da casa de Ashley. Ele teceu paralelamente à praia as duas milhas, e Vanessa pôde apreciar a paisagem à beira-mar à sua esquerda e à paisagem urbana, à sua direita, enquanto caminhava. Gênova era verdadeiramente uma linda cidade, embora pudesse  ser um pouco esmagadora a princípio. A maioria dos edifícios eram brilhantemente coloridos em laranja, vermelho, amarelo, azul e verde, e a explosão de cores pode fazer sua cabeça girar. Vanessa tentou não encarar as mulheres bronzeadas usando quase nada correndo, caminhando com seus cães ou conversando animadamente entre si. Ou os homens bonitões em shorts e alguns de patins passando por ela. Era um dia quente, em muitos aspectos, e Vanessa parou em uma barraca de sorvete e comprou um sorvete para tentar esfriar.
Chegando ao fim do Corso Itália, Vanessa decidiu fazer o caminho de volta, mas desta vez ela queria caminhar pela praia. Estava muito quente, e ela precisava desesperadamente de alguma brisa e água fresca para evitar o golpe de calor. A súbita mudança de clima já estava cobrando um preço em seu corpo.
Vanessa tirou os chinelos e desceu para o mar. Quando a primeira pequena onda lavou até os tornozelos, ela gritou de alegria. Pena que ela não tinha colocado seu biquíni sob o vestido - agora ela estava tentada a ir para a água com roupas. Em vez disso, ela começou a caminhar ao longo da praia, curtindo o sol, a areia debaixo dos seus pés, a água e a brisa refrescante. Havia tantas pessoas - mulheres lindas em biquínis minúsculos, homens bronzeados com abdômen tanquinho e encantadores sorrisos italianos, crianças correndo por aí gritando, os turistas em seus guarda-chuvas. Ela poderia avistar um turista em um quilômetro - eles eram pálidos, escondendo-se sob a sombra de suas sombrinhas ou chapéus de palha. Olhando para a sua própria pele pálida, ela percebeu que era uma turista, também. Stella precisava fazer algo sobre isso, se bronzeando o mais rápido possível. Seria sua missão ter um brilho dourado e saudável em toda a sua pele em menos de duas semanas, para que ela não se sentisse tão fora do lugar.
A buzina soou ao longe, e quando Vanessa virou em direção ao mar para olhar o enorme navio que tinha produzido o som, seu olhar ficou fixo em uma bela cena, a praia pitoresca empalidecia em comparação. Um salva-vidas saiu da água, calção laranja preso às pernas e água pingando em cima dele. Ele balançou a cabeça para se livrar de uma parte da água em seu cabelo e Vanessa sentiu como se tudo começasse a acontecer em câmera lenta - pequenas gotas de água deslizaram do pescoço para baixo pelo seu peito largo e braços musculosos, ao longo de uma tatuagem do lado direito do seu ombro, e para baixo, continuando em direção ao peito e o abdômen de tanquinho, finalmente se perdendo na cintura de seu tronco. Uma parte de outra tatuagem espreitava por cima do seu quadril esquerdo, a outra parte escondida debaixo delas. A pele bronzeada dourada brilhava ao sol e movia com tanta graça, que uma pantera seria considerada desajeitada ao lado dele.
Vanessa parada ali boquiaberta chamou a atenção do salva-vidas. No estilo típico italiano, ele sorriu e piscou para ela, antes de continuar andando até a praia e subir para seu posto. Vanessa sentiu a pele pálida queimar ruborizada, e isso foi o suficiente para a sacudir de seu transe. Foi "momento Baywatch" total e ela não podia resistir à tentação de olhar ao redor procurando qualquer câmera. Ela não podia acreditar que algo assim poderia ter acontecido, sem que ninguém registrasse para um filme ou pelo menos um comercial.
Reunindo o máximo de dignidade que conseguiu juntar em tais circunstâncias, ela continuou sua caminhada, como se ela não tivesse olhado para alguém por uns bons cinco minutos. Passando em frente de seu posto de salva-vidas, ela não podia deixar de olhar para a criatura estilo deus. Ele encontrou seus olhos com um sorriso diabólico no rosto. No entanto, em vez de achá-lo arrogante, Vanessa achou que era sexy como o inferno.
O som do seu telefone a assustou e ela pulou, o coração batendo em seu peito. Pegou do bolso de seu vestido, e sorriu antes de deslizou seu dedo para cima para  aceitar a chamada.
 Onde você está? Acabei de chegar em casa e você não está aqui, eu olhei em todos os lugares! Você está bem? — Voz em pânico de Ashley soou do outro lado.
 Eu estou bem, Ash. Não pude resistir em sair para fazer alguma exploração - o clima é tão perfeito!
  Sim, ele soaria assim para um londrino, eu suponho. — Os dois riram. — Onde você está?
  Na praia. Eu estava prestes a voltar.
  Ok, você pode encontrar sozinha o caminho de volta, ou você quer que eu vá buscá-la ?
                         A praia está há dez minutos a pé da sua casa, eu acho que eu posso encontrar.
 Ok, se apresse. Eu mal posso esperar para te ver!
  Eu também. Vejo você daqui a pouco.
Desligando o telefone, Vanessa não conseguiu resistir em virar e dar uma última  olhada no salva-vidas. Para sua grande decepção, ele não estava lá. Discretamente, ela esquadrinhou o mar e a praia, mas não podia vê-lo. Oh, bem, será que ela imaginou a coisa toda? Ela era conhecida por devaneios. Para certificar-se, ela fez uma nota mental para perguntar a Ashley quando fosse para a praia amanhã.
Quando Vanessa entrou pela porta, Ashley a agarrou em um abraço de urso.


 Estou tão feliz por você estar aqui. — disse ela, com a voz abafada contra o ombro de Vanessa.
   Eu também.
Dez minutos mais tarde, cada um delas sentou-se em um pufe com limonada gelada na mão. Ashley falou sobre a universidade e seus empregos de verão com grande entusiasmo. Ela também disse a Vanessa que mal podia esperar para apresentá-la a seus amigos - ela tinha certeza de que eles iriam amá-la.
  Deixe-me avisá-la sobre Zac. — Ashley havia mencionado seu amigo Zac algumas vezes antes, e Vanessa se perguntava se havia algo mais do que amizade entre eles, porque Ashley sempre falava com tanto carinho dele. Vanessa levantou uma sobrancelha interrogativamente, esperando o discurso nós-costumamos-ser-amigos-mas-somos- agora-amantes.
 Não, não, não é assim. Nós somos amigos.
Vanessa bufou em um "Sim, claro" de uma forma que Lisa ficou séria. — Não é assim. Quando cheguei aqui, há cinco anos, eu tinha acabado de perder tudo o que eu conhecia - o meu pai, a casa em que eu cresci, minha melhor amiga... Minha mãe achava que eu precisava falar com alguém e me enviou a este grupo de apoio. Foi aí que eu conheci Zac. Seu pai tinha morrido dois anos antes e ele estava finalmente tentando lidar com isso.

 Encontramos apoio um no outro. Nunca houve qualquer atração física entre nós  e nunca haverá. Mas eu posso dizer honestamente, além de você, ele é meu melhor amigo.
Vanessa  assentiu com a cabeça, tentando não voltar a esse tempo, há cinco anos.
  Mas, tanto quanto eu o amo, ele é um terrível paquerador. Então, estou avisando - ele vai tentar encantá-la no início, mas uma vez que você passe por isso, verá que ele é um grande cara.
Vanessa sorriu, sem saber o que dizer.
Além disso, há a irmã dele,Gia, que é uma chef incrível e trabalha em um restaurante muito chique. Ela prometeu cozinhar para nós quando tiver uma noite de folga. Ah, e Beppe - ele é amigo de Zac desde a escola. Ele pode ser um pouco intimidante para pessoas que não o conhecem bem, mas eu tenho certeza que você vai adorá-lo.
  Soa como um bom público. — disse Vanessa, já impaciente para conhecê-los.
Elas conversaram por horas sobre tudo e qualquer coisa, mas parecia que se passaram apenas alguns minutos, quando Niki entrou pela porta. Ao ver Vanessa, um enorme sorriso apareceu em seu rosto e ela abriu os braços. Vanessa abraçou sua tia e derreteu em seu abraço, afastando todas as dúvidas sobre a vinda dela aqui. Era definitivamente a coisa certa a ser feita.
Isso está incrível, tia Niki. Você que fez isso? — Vanessa perguntou, quando provou o melhor tiramisu do mundo.
   Sim, ontem à noite. — Sua tia brilhou positivamente com satisfação, e as meninas terminaram a sobremesa em tempo recorde.
Ashley sempre se pareceu com sua mãe, mas agora, cinco anos depois que Vanessa a tinha visto pela última vez juntas, elas eram como gêmeas. O clima italiano, obviamente, teve um grande efeito sobre sua tia, porque ela nunca tinha aparecido assim - sua pele estava levemente bronzeada e brilhava com saúde, seus olhos verdes tinham o brilho travesso que Vanessa se lembrava de sua infância, e seu corpo estava magro e tonificado. A única diferença entre mãe e filha era que o cabelo loiro de Ashley estava longo e ondulado, enquanto Niki mantinha o dela elegantemente logo abaixo das orelhas.
Elas estavam tão ocupadas comendo a deliciosa refeição que Niki tinha preparado, que Vanessa tinha esquecido de lhes contar sobre “o” salva-vidas.
 Eu fui para a praia hoje, e Ashley, nós temos que voltar amanhã! Tinha um salva-vidas incrível - ele devia ser de outro mundo, tão quente! Eu não podia acreditar nos meus olhos... — Tanto Niki como Ashley caíram na gargalhada e Vanessa olhou para elas com curiosidade. — O quê foi?
 Oh, querida, além do cenário, alimentação e clima, a outra coisa que você vai encontrar "de outro mundo aqui" — Niki fez aspas no ar com os dedos — são os homens. Eles são muito carismáticos. E bonitos. Mas cuidado, eles são muito charmosos até que consigam o que querem de você, mas não espere um relacionamento.
Vanessa tinha esquecido como fácil era falar com sua tia - ela poderia conversar com ela sobre qualquer coisa, sem se sentir desconfortável.
Não se preocupe, tia Niki. Eu também estou apenas procurando diversão. — Ela piscou para ela e as três riram.
Depois do jantar, Ashley se desculpou porque tinha que terminar uma pintura para sua aula no dia seguinte, e Vanessa ficou na cozinha para ajudar a sua tia com os pratos.
 Estou tão feliz que você finalmente decidiu nos visitar, querida. — ela disse calorosamente, mas havia tristeza em seus olhos.
 Eu também. É maravilhoso aqui.
Elas ficaram em silêncio por um longo tempo, antes de Niki falar novamente.
  Eu queria chamá-la, você sabe... — ela começou, mas sua voz tremia e ela não terminou a frase.
Ela queria chamá-la, também.
Quando falou isso, lágrimas derramavam dos olhos de Niki e ela as afastou com as costas da mão.
  Ela já te perdoou.
Niki exalou um profundo suspiro e assentiu. — Ela sempre foi uma pessoa melhor.
 Não se trata disso, tia Niki. Todo mundo lida com a tragédia de forma diferente. Minha mãe queria ficar na casa dela, precisamente porque tinha tantas lembranças. Você queria ficar longe - esse era o seu caminho. Não se sinta culpada que você fez o que  tinha que fazer para você e sua filha.
Niki ainda estava chorando em silêncio e não respondeu.
 O importante é que nós - estamos quase de volta ao normal agora. Nós nunca vamos voltar a ser as mesmas pessoas que éramos, mas conseguimos reconstituir as nossas vidas. Nós não desmoronamos.
 Quando você ficou tão inteligente e madura? — perguntou Niki, em meio às lágrimas.
Quando eu tive que lidar com a perda de meu pai e meu irmão, assim como o câncer. Isso faz isso com uma pessoa.
Em vez disso, ela disse: — Quando você estiver pronta, ligue para ela. Veja o que acontece.
Niki assentiu, enquanto Vanessa a abraçou. Ficaram assim mais tempo do que o necessário, precisando do apoio uma da outra.
 Então, os pratos estão em ordem. Onde é o estúdio de Ashley? Eu adoraria ver seus quadros. — disse Vanessa, para quebrar a tensão e mudar de assunto.
 Eu tenho medo que você não possa. Ela é muito discreta sobre isso, ninguém está autorizado a entrar - nem mesmo eu.
 Você nunca viu nenhum dos seus quadros?
 Oh, eu vi. Os que ela escolhe me mostrar. Venha, eu vou te mostrar, eu tenho todos eles guardados.
Vanessa tinha acabado de falar com sua mãe no Skype, quando houve uma batida suave na porta de seu quarto.
  Entre.
  Oi — Ashley escorregou, já de pijama, e sentou-se na cama ao lado de sua prima.
 Eu vi algumas de suas pinturas. Elas são incríveis, Lis. Eu não posso acreditar o quão talentosa você é.
Ashleysorriu e acenou com a cabeça, mas não disse nada. O que, como bem sabe Vanessa, significava que ela não queria discutir mais isso. O inferno que ela não iria.
 Então, o que há com esse seu estúdio super-secreto?
— Não é super-secreto, eu só não gosto que ninguém veja o que eu estou trabalhando antes de eu terminar, e ficar satisfeita com o resultado.
Isso soou muito razoável e convincente. O problema era que Vanessa não acreditava que essa era a única razão, porque simplesmente não era típico de Ash manter segredos. Sim, ela era mal-humorada e tendia a cair em seu próprio mundo, às vezes, mas ela era uma artista. Isso vinha com esse dom.
Suspirando, Vanessa decidiu deixar isso quieto por agora. Afinal, era a sua primeira noite juntas.
 Você se importaria se eu ficasse aqui esta noite? — perguntou Ash.
  Claro que não. — disse Vanessa, e abriu espaço na outra ponta da cama.
 É que amanhã de manhã eu tenho que estar na galeria, e não vou conseguir vê- la até o final da tarde. — Ela parecia culpada e em conflito - era óbvio que Ashley amava o que fazia, mas ao mesmo tempo ela se sentia mal por não gastar cada segundo com Vanessa, já que elas não se viam há cinco anos. Mas essa não era a única razão, Vanessa suspeitava que sua prima também estava preocupada com ela por causa de sua doença.
  Não se preocupe, Ash. Eu não espero que você largue tudo por minha causa. Eu vou ficar bem? Eu vou fazer uma corrida na praia pela manhã e, em seguida, eu devo dar um passeio ao redor da cidade.
Quando Ashley não disse nada, Vanessa continuou: — Eu estou bem. Eu não me sinto tão bem há meses. Estou muito feliz por estar aqui. Eu vou me divertir muito neste verão. Então pare de se sentir mal por isso - eu estou bem, apenas abandonada. — Isso fez com que Ashley desse uma risada, assim como Vanessa havia previsto.
 Ok. Mas à tarde, quando eu voltar, eu convidei todos para conhecê-la.
   Parece ótimo.
Elas conversaram até o meio da noite, tentando dormir várias vezes, mas incapazes de deixar a companhia uma da outra. No final, Ashley não conseguia manter os olhos abertos por mais tempo e adormeceu, enquanto Vanessa falava sobre sua obsessão com True Blood.
Logo, ela também adormeceu, sorrindo para a visão do verão maravilhoso pela frente. A última coisa que veio em sua mente antes que ela perdesse o pensamento consciente, foi a de um salva-vidas quente.

Eu gostaria de poder vê-lo novamente. Apenas uma vez.
♥♥♥
Olá meninas! Como vocês estão??? O que estão achando da história?
Se comentarem bastante posto o próximo capítulo ainda essa semana!!!
E falando em capítulos,gostaria de saber se vocês estão achando dos capítulos,digo em relação ao tamanho,porque eles são um pouco grandinhos né?! rsrs
Se estiver ficando cansativo,me falem que eu divido os capítulos em partes! Aguardo os comentários! 
Amo vocês,xoxo

sábado, 23 de julho de 2016

Capítulo Um

A Estação de trem St Pancras tinha cheiro de pastel fresco e café, e agora a assinatura do aroma doce e cítrico de Gina. Este último dominando tudo, porque a mãe de Vanessa a estava abraçando com tanta força, que ela achou difícil até respirar. Vanessa ansiava por um gole do café mocha que estava segurando nos últimos 15 minutos, mas ela não queria afastar sua mãe. Elas não ficaram separadas por um dia sequer nesses últimos cinco anos, e era natural que Gina estivesse encontrando dificuldades para deixar a filha ir.
—Tem  certeza  que  é  o que  você  precisa, querida? — Gina perguntou, quando afastou do abraço.
Sim, mamãe, eu tenho. — Vanessa tentou manter a calma e não apontar que ela já havia respondido a essa pergunta três vezes nos últimos vinte minutos.
 Você ainda pode mudar de ideia sobre os planos de viagem. É muito mais fácil conseguir um voo...
Eu não estou atrás do "mais fácil”“, mãe. —Vanessa interrompeu. — Eu gostaria de aproveitar a viagem e curtir um pouco da bela paisagem francesa e italiana. Eu não estou com pressa.
Eu preciso de tempo para tentar reprogramar meu cérebro em pensar que está tudo bem, e tudo o que tenho que me preocupar é se eu usei bastante protetor solar.
Gina balançou a cabeça quando o sistema de áudio tocou e uma voz masculina entediada anunciou a última chamada para o trem Eurostar 14.03 para Paris.
 É melhor você ir, querida. — disse Gina e seus olhos brilhavam com lágrimas.  Os próprios olhos de Vanessa nublaram, e por um segundo ela se perguntou se estava fazendo a coisa certa, deixando a mãe sozinha. Talvez seja a hora de descobrir se podemos caminhar sozinhas - as palavras de sua mãe ecoaram em sua cabeça e afugentou todas as dúvidas.
No momento em que Vanessa sentou-se em sua cadeira, ela cochilou. Esse esgotamento repentino a sufocou, e ela, em primeiro lugar, por puro instinto, pensou que era por causa do câncer. Mas depois, pensando racionalmente, ela percebeu estava "tudo limpo" dentro dela há uma semana, e não sentia melhor ou mais energizada há meses.
Não, não foi o câncer que a fez sentir como se houvesse um saco de batatas pesando sobre o peito. Eram todas as emoções que Stella passou na semana passada - o exame após a operação, receber a boa notícia, ver sua mãe sorrir novamente, mas, em seguida, deixando-a sozinha.
Ela dormiu todo o caminho para Paris. Quando ela acordou, assim que o trem parou na Gare du Nord, Vanessa não pôde deixar de sorrir. Metade do nó que estava pesando no peito desapareceu e ela se sentiu animada e... feliz. Ela enviou uma mensagem de texto a sua mãe para avisá-la que havia chegado a França com segurança, Stella tirou a mala do trem e deu seu primeiro passo independente.
E assim, num piscar de olhos, sua vida mudou para sempre. Ela só não sabia disso ainda.
Eram cinco horas em Paris, e Vanessa tinha cerca de três horas antes que precisasse embarcar no trem noturno Thello para o Milan. Saindo da estação de trem pelas passarelas, ela caminhou até a Gare de Lyon, com mais de duas horas para gastar.
Era um longo tempo para apenas sentar e esperar o trem, mas não o suficiente para dar um passeio ao redor da cidade - especialmente porque ela teria que puxar a mala atrás dela o tempo todo.
O que fazer? Ela pensou, assim que seu estômago roncou e a lembrou que não tinha comido nada desde a pastelaria em St Pancras.
Como uma paciente de câncer de fígado, Vanessa não era uma fã de fast food, porque ela tinha que cuidar da sua dieta. Não, esqueça isso, ela não era mais uma paciente com câncer de fígado. Nem era a garota que havia perdido metade de sua família. Ela era Vanessa Hudgens - prima e amiga de Ashley há muito perdida. Pelo menos por dois meses.
Vamos tentar de novo – Vanessa Hudgens não era uma fã de fast food, ou qualquer comida não saudável. Não só porque ela tinha que cuidar de sua dieta, mas porque ela amava boa comida. Sanduíches Fritos, malcheirosos, plásticos não eram sua praia.
Olhando ao redor, ela esperava encontrar um lugar decente para sentar e comer, mesmo que estivesse em uma estação de trem. E, sabe o que? - Logo à sua direita havia um restaurante que parecia bastante promissor. Chegando mais perto, Vanessa viu que se chamava Train Bleu e se parecia mais com o Palácio de Versalhes do que um lugar para comer. A decoração era tão linda que ela sorriu com prazer - só os franceses para ter um restaurante desses em uma estação de trem!
Suportando os enormes lustres, tetos altos góticos e enormes desenhos pintados à mão em todas as paredes fazia valer totalmente vale a pena. A comida era requintada. Vanessa escolheu a refeição mais complicada para pronunciar, apenas para observar a expressão esnobe do garçom, enquanto ela lutava com as palavras. Fricasséee de Poulet à l”Ancienne era de fato um bocado, mas acabou por ser tão delicioso que Vanessa prometeu lembrar do nome e aprender a dizê-lo corretamente. Para a sobremesa, ela fez outra escolha impronunciável - Croquembouche. Quando o garçom esnobe trouxe até a mesa, Vanessa não podia acreditar em seus olhos. Era uma pirâmide de vidro de  profiteroles de caramelo em uma taça, dentro um fino líquido de caramelo entrelaçava. Era tão lindo que Vanessa se sentiu mal por arruiná-lo - até que ela pegou sua primeira mordida e passou os próximos 15 minutos sentindo o gosto do paraíso na boca.
Assim que Vanessa foi pagar a conta, ela ouviu a primeira chamada para o trem Thello para Milan. Naquele momento ela estava extremamente feliz por ter decidido pegar o trem noturno, em vez do trem de alta velocidade TGV. O trem com uma cama que ela tinha reservado parecia como o céu, após o jantar que ela tinha acabado de desfrutar.
E foi. Vanessa trancou a porta da cabine, estendeu-se na cama e adormeceu antes que o trem tivesse deixado Paris.
Quando ela acordou, eram 04:00hs. O trem estava se movendo a um ritmo  vagaroso e não havia nenhum outro ruído, exceto o suave “Choo-Choo” dos trilhos. Abrindo as cortinas e olhando para fora da janela, Vanessa engasgou. O sol não tinha nascido ainda, mas o brilho de seus primeiros raios estava lançando uma luz exuberante sobre a paisagem. Ela não tinha certeza exatamente onde estavam, mas o cenário era incrível - um viçoso vale rodeado por montanhas, que pareciam tão majestosos como algo saído de um conto de fadas.
Ela definitivamente não estava mais no Reino Unido.
Com esse entendimento, a última das suas preocupações e dúvidas escaparam de seu peito e sua boca se espalhou em um sorriso preguiçoso que cresceu mais e mais até que seu rosto começou a doer. E, mesmo assim, ela não conseguia parar de sorrir.
Enquanto esperava o nascer do sol, os pensamentos de Vanessa deixaram sua própria vida em casa, e flutuaram em direção a seu futuro pelos próximos dois meses. Niki tinha cuidado muito bem dela e de Ashley. Usando parte do dinheiro que ela havia adquirido do seguro de vida do marido, bem como a venda de tudo o que possuía em Londres, Niki tinha comprado uma casa em um bom bairro em Gênova, a uma curta distância do Corso e da praia. Com o resto, ela montou seu próprio negócio quiroprático, que tinha sido muito bem sucedida, e agora ela possuía um pequeno, mas luxuoso centro de SPA.
Niki tinha tentado fornecer tudo para Ashley, para fazê-la sentir-se segura e inspirá-la a viver sua vida ao máximo, apesar de sua terrível perda. Durante os últimos cinco anos, Vanessa e Ashley tinham estado em contato via e-mail ou Skype. Sua prima parecia mais feliz e mais tranquila a medida que o tempo havia passado. Ela também tinha ficado feliz por Vanessa conseguir colocar a sua vida de volta nos trilhos, sem as medidas extremas que  Niki tinha tomado para elas.
Apesar da distância, as duas meninas tinham permanecido próximas, e Ashley era a única pessoa além de sua mãe que sabia sobre o câncer. Lembrou-se tão claramente como ontem, do dia que deu a notícia, Ashley havia quebrado e chorou. Precisou que Vanessa permanecesse calma e composta, garantindo a sua prima que ia ficar bem, em vez do contrário.
A única coisa que Vanessa tinha pedido era que a informação permanecesse entre as duas. Mesmo Niki não poderia saber. Ashley tinha dado sua palavra e fez um voto  imaginário de silêncio, que ambas deram risadas, através de suas lágrimas.
Vanessa sentiu o calor no rosto e percebeu que o sol tinha subido até a metade enquanto ela estava perdida em pensamentos. Era laranja brilhante e suave, acordando o cenário onde o trem estava viajando. Ela lembrou-se de Ashley e seu "período laranja" ela tinha ficado obcecada em encontrar "a sombra laranja perfeita" para usar em um de seus quadros. Foram quatro meses de experiências com cores, e quando ela ficou finalmente satisfeita com o resultado, a sua alegria foi imensa.
A prima de Vanessa era uma artista extremamente talentosa, e não foi uma surpresa para ninguém quando ela escolheu estudar História da Arte na Universidade de Gênova. Ela tinha acabado de terminar seu primeiro ano e já estava com muito mais responsabilidades do que uma garota normal de vinte anos de idade. Reconhecendo seu talento, um de seus professores lhe oferecera um estágio em sua galeria, assim como a deixou ajudá-lo em sua aula de arte. Então, em vez de desfrutar o verão, Ashley estava presa em uma galeria na maioria dos dias e em um estúdio de desenho na maioria das noites. Mas ela adorava. O entusiasmo com que ela falou sobre sua escola e seus —empregos — era contagiante, e Vanessa estava muito feliz por ela.
Ashley se sentia culpada que não seria capaz de ficar tanto tempo com sua  prima como ela desejava, por causa de seus compromissos. Vanessa a tinha tranquilizado, e lhe disse que ela sempre tinha ficado muito bem por conta própria. Elas iriam passar o máximo de tempo juntas quando Ashley pudesse, o que era ótimo. No entanto, Ashley não tinha ficado contente com essa resposta e prometeu apresentar Vanessa a todos os seus amigos mais próximos. As pobres pessoas ficariam presas como sua babá, enquanto Ashley trabalhava. Nenhuma objeção tinha sido autorizada e, conhecendo muito bem a teimosia de sua prima, Vanessa decidiu poupar o fôlego.
Perdida em seus pensamentos, Vanessa nem sequer notou como o tempo voou. Um minuto ela estava olhando para a bela paisagem, e no próximo parecia que o trem  estava parando na Estação central de Milão. O trem InterCity de Gênova estava saindo em menos de uma hora, de acordo com o itinerário de Vanessa. Ela teve tempo apenas o suficiente para esticar as pernas, comprar uma xícara de café e achar seu último trem.
Deixar o trem com ar-condicionado e sair da plataforma Piazza do Principe em Gênova foi um choque. O ar lá fora estava mais quente e mais úmido do que o que ela estava acostumada, em qualquer época do ano. Mesmo no verão, o clima de Londres não poderia comparar com nada perto desse calor. Graças a Deus, Ashley tinha avisado a ela o quão quente seria, e a maioria das roupas que Vanessa tinha embaladas eram vestidos de verão, shorts e tops. Neste exato momento, ela ansiava por um short. O jeans que ela usava estavam começando a derreter em suas pernas e ela tinha sérias dúvidas que seria capaz de tirá-lo. Tirando o casaco, ela o pendurou na mala, Vanessa sentiu um pouco melhor com sua camiseta, apesar de que isso não ajudou em nada com a situação do jeans.
Ela chegou em Gênova ás 09:30 em ponto. Sentindo-se revigorada com o forte macchiato duplo que tomou em Milão, e o fato de que ela havia chegado ao seu destino com segurança, Vanessa puxou a mala para a saída mais próxima. Ela pulou em um táxi, deu ao motorista o endereço e mandou uma mensagem para sua mãe. A resposta veio quase que imediatamente e Vanessa tinha certeza de que sua mãe não tinha dormido a  noite toda, segurando seu telefone e esperando a mensagem que sua filha chegou em segurança em Gênova.
Era isso. Ela estava aqui. Ela podia relaxar e se divertir. Já era hora. 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Prólogo


 — Não, Eric, não começou ainda! O pontapé inicial é em meia hora, você sabe disso. — Vanessa revirou os olhos, mesmo que seu irmão não pudesse vê-la pelo telefone. O maníaco de futebol que ele era, tinha ido a um jogo mais cedo, com seu pai e seu tio e agora eles estavam acelerando de volta para a  casa, porque sua amada Liverpool iria jogar contra o Man U em 25 minutos.
— OK, eu te vejo daqui a pouco. Tchau.
Ela desligou e sorriu. Mesmo que seu irmão fosse quatro anos mais velho que ela,ele nunca olhava para ela como sua irmã mais nova. Eric sempre a  levou com ele,  quando a idade permitia, é claro. Aos quatorze anos, ainda não era permitido a ela ir nas festas dos seus amigos, mas de bom grado ele a levava junto quando iam para os jogos de futebol, shows, boliche ou apenas passear.
Vanessa não tinha muitos amigos. Meninas de sua idade eram estranhas - falando de meninos, maquiagem e roupas o tempo todo. Nenhuma das coisas que figuravam na lista de interesse próprio de Vanessa. Ela preferia sair com os amigos de Eric, que a adotaram como um dos seus. A única menina que ia junto era sua prima Ashley. Vanessa teria gostado de passar a tarde com ela, mas, estranhamente, Ashley tinha declinado a oferta, dizendo  que tinha um monte de lição de casa para fazer. Vanessa tinha suspeitado de que havia um menino envolvido em algum lugar nesse dever de casa, mas havia decidido contra pressionar sua prima por respostas. Ashley diria a ela quando estivesse pronta. E a Vanessa cabia apenas esperar e rezar que sua prima não se transformasse em uma daquelas meninas chatas que desenham corações em seus diários com uma expressão sonhadora no rosto.
Risos ecoaram na sala, quando sua mãe e sua tia entraram pela porta da frente. Elas aproveitaram que os meninos foram ao estádio e tiraram o dia das meninas no shopping. Vanessa tinha educadamente recusado a ir com elas, por que roer as unhas e andar horas a fio pelas lojas, não era sua ideia de uma boa diversão. Ela também se recusou a ir com Eric e seu pai assistir o jogo Charlton vs Fulham, porque só tinham três ingressos, e ela sabia que seu tio Gordon teria gostado de ir também. Ela tinha razão - seu rosto se iluminou quando ela lhe ofereceu o ingresso.
Depois de ter a casa apenas para si, ela tinha se enrolado com um livro e uma xícara de chocolate quente e tempo tinha voado.
   Ei, querida. O que você está fazendo? — O perfume característico de sua mãe encheu a sala, enquanto ela entrava carregando uma tonelada de sacolas, com a tia Niki logo atrás dela com seu próprio conjunto de sacolas em ambas as mãos.
 Oi, mãe. Nada de mais. Apenas lendo.
 Os meninos ainda não chegaram em casa?
— Não. Eric ligou. Eles estão a caminho.
  Bom. Vem, Nik, tenho que esconder as sacolas, antes que Greg chegue em casa e tenha um ataque cardíaco.
 E quanto a mim, Gina? Onde é que eu vou esconder as minhas de Gordon?
  Vamos colocar tudo no armário, e nós vamos contrabandeá-las mais tarde, enquanto eles assistem o jogo.
Seus risos seguiram pelas escadas, e logo Stella ouviu a porta do quarto de sua mãe fechar.


Nicole Tisdale, também conhecida como Niki, tinha sido a melhor amiga de sua mãe, desde que se conheceram em uma convenção médica em Milão há mais de vinte anos atrás. Quando Niki conheceu Gordon, que tinha apresentado Gina ao seu irmão Greg, foi amor à primeira vista. Os quatro são inseparáveis desde então.
Os Tisdales viviam na mesma rua e passavam quase todas as noites juntos. Eles  eram uma grande família, prontos para apoiar e cuidar uns dos outros em todos os problemas.
Muitas pessoas não têm esta sorte, Vanessa pensava.
Sua mãe não só tinha encontrado uma amiga de longa data em Niki, mas elas haviam construído suas vidas juntos, e estavam mais perto do que irmãs.
Vanessa olhou para o relógio, eram cinco horas. A partida iria começar a qualquer momento, assim ela ligou a TV. Se Eric não estivesse em casa em trinta segundos, ele  iria perder o pontapé inicial, e ela iria ouvir isso por dias. Revirando os olhos novamente, ela deixou o livro sobre a mesa do café e foi até a janela para verificar se o carro estava chegando na garagem. Não. Nenhum carro. Nada de Eric.
O toque do telefone fixo a assustou. Ninguém ligava mais no telefone fixo. Talvez seu sinal do celular estivesse fraco, e Eric devia estar pirando por estar atrasado. Suspirando, ela foi pegá-lo, esperando ouvir a voz em pânico de seu irmão. No entanto, ela não reconheceu o número que piscou na tela.
 Olá?
 Olá, é a Sra. Hudgens? —perguntou uma voz feminina educada.
  Não, é Srta. Hudgens, sua filha.
— Srta. Hudgens, chame a sua mãe imediatamente. — A voz era calma, mas insistente.
Os sinos internos de alerta de Vanessa começaram a tocar tão alto que ela mal ouviu as palavras seguintes que viajaram na linha. — Houve um acidente. Sua mãe precisa vir para o hospital de St. George imediatamente.
E assim, num piscar de olhos, sua vida mudou para sempre.
*

Dois meses mais tarde...
  Por favor, não faça isso, Niki. Por favor. — A voz suplicante de Gina fazia Vanessa sentir como se alguém estivesse cortando direto através do seu coração.
Me desculpe, mas eu não posso mais ficar aqui. Sinto muito, Gina, mas eu simplesmente não consigo. Estamos partindo em uma semana.


Niki respirou profundamente, sua voz tremendo. Elas estavam em pé no meio da sala de estar, dois pés as separando, e ainda assim parecia que haviam países inteiros entre eles.
Em breve, haverá, Vanessa pensava.
Depois que seu pai, seu tio e Eric tinham morrido naquele acidente de carro há dois meses, nada havia sido o mesmo. Niki estava completamente perdida. Ela e Ashley haviam se mudado para um hotel e venderam tudo o que possuíam - a casa, o carro, móveis, roupas. Apesar dos melhores esforços de Gina para alcançar sua amiga, Niki se fechou completamente. Ela nem falava mais direito com sua mãe. Este encontro entre as duas foi o primeiro em semanas, e ela só tinha vindo para se despedir pessoalmente.
Ela e Ashley estavam se mudando para a Itália. Niki tinha amado aquele país desde que ela passou um ano estudando na Universidade de Gênova, como estudante de intercâmbio. Ashley tinha sido forçada a estudar italiano desde a tenra idade e, para não   ser deixada para trás, Vanessa tinha se juntado nas aulas particulares de sua prima. Assim, sem qualquer barreira linguística e com alguns amigos íntimos de Niki esperando por  elas, era o lugar perfeito para ir e tentar reconstruir suas vidas.
Sentada no degrau mais alto da escada para que sua mãe não pudesse vê-la, Vanessa enxugou as lágrimas e tentou se sentir feliz por elas. Elas partirem era OK. Depois de tudo o que tinham passado, foi de alguma forma reconfortante pensar que pelo menos duas delas estavam caminhando para melhorar.
Niki saiu sem abraçar Gina. Ela nem sequer apertou sua mão ou algo assim. Nada. Sua mãe conseguiu manter o controle até sua melhor amiga sair pela porta, mas no momento em que ouviu o som suave da fechadura soar de volta no lugar, ela caiu para trás no sofá e começou a chorar. Seus soluços eram tão altos e em tanta quantidade, que ela não conseguia respirar.
Vanessa desceu correndo as escadas e abraçou o corpo frágil de sua mãe com seus braços magros.
 Ssshh, tudo bem, mamãe, você ainda tem a mim. Podemos passar por isso. Um soluço ainda mais alto escapou dos lábios de Gina.
  Você está me ouvindo? Nós podemos fazer isso.
Vanessa não tinha certeza se ela estava tentando convencer sua mãe ou a si mesma, mas isso não importa. Eram apenas as duas agora.
*
Uma semana mais tarde...
Vanessa não estava preparada para ver Niki. Ainda não. Mesmo que  ela compreendesse as razões por trás de sua decisão e lhe desejasse sorte, Niki não era a única que tinha perdido alguém que amava. Sua mãe havia perdido seu marido e seu filho - e agora ela tinha perdido sua melhor amiga também. Vanessa sabia que Gina ficaria bem com o tempo, sua mãe era uma pessoa forte e nunca fugiu de suas responsabilidades e seus problemas. Sua filha era a única coisa que lhe restava para  viver agora, e Vanessa iria ter a maldita certeza de que seria forte por ela.
Eles estavam caminhando para ficar OK.
Vanessa tinha certeza de que um dia ela seria capaz de perdoar Niki por deixar a sua melhor amiga no pior momento de sua vida - mas não ainda.
No entanto, ela sentiria falta da sua melhor amiga loucamente.
 Oi — Vanessa disse quando Ashley abriu a porta. Sua prima sorriu tristemente e afastou-se do limiar, convidando-a a entrar. As duas meninas se abraçaram quando a porta se fechou atrás delas, e ficaram assim por um longo tempo.
*

Quatro anos depois...
  Eu sinto muito — disse o médico, por trás de seus óculos sem aro.
Lágrimas caíam dos olhos de Gina, quando ela olhou para a filha. Vanessa só tinha uma coisa em sua mente - o que sua mãe fez de tão ruim, para merecer que seu marido e seu filho fossem mortos, e agora sua filha fosse diagnosticada com câncer de fígado? Por que ela estava sendo punida de forma tão cruel? Gina Hudgens era a pessoa mais atenciosa, carinhosa, honesta, responsável e compassiva da Terra. Como médica clinico geral, ela ajudava as pessoas a cada dia, como mãe, amava e apoiava sua única filha restante em tudo o que fazia e tinha ajudado as duas a conseguir colocar a vida de volta nos trilhos.
Até hoje, quase poderia ter dito que suas vidas eram boas. Elas haviam aceitado e aprendido a lidar com as consequências do acidente, e se sentiam quase normais. Vanessa tinha terminado o ensino médio e estava ansiosa pelo seu ano sabático, e escolheria uma faculdade depois disso. Gina começou a sorrir de novo, mesmo que houvesse uma sombra constante atrás de seus olhos azuis. Elas saíam para jantar, iam na casa de amigos, ao cinema, e de vez em quando — faziam fins de semana de meninas.
Há uma semana haviam descoberto que o motorista bêbado que tinha esmagado o carro de seu pai e matou três pessoas, estava fora da prisão. Seu veredicto foi uma piada para começar, mas isso era ridículo - ele tinha sido sido condenado a pagar £ 2 mil libras de indenização e oito anos de prisão, mas ficou apenas quatro. Aparentemente, isso era  o quanto a vida de três pessoas valiam - £ 2.000 libras e quatro anos em uma prisão de luxo, com TV, um console de jogos, e um telefone celular ao alcance do braço.
Depois de ouvir sobre a liberdade antecipada do motorista, Gina tinha se trancado em seu quarto e chorado por horas. Vanessa, por outro lado, estava cega pela raiva. Ela fez algo que não a deixou orgulhosa, e agora ela estava sendo punida por sua decisão.
 Há uma boa notícia, no entanto. — A voz quente do médico arrastou Vanessa para longe de seus pensamentos sombrios. — Felizmente, descobrimos o câncer numa fase muito precoce - o que significa que, se operar imediatamente e fizer um  acompanhamento com um ciclo de quimioterapia, você tem uma boa chance de um resultado positivo, mocinha. Se pudermos remover tudo isso, há uma boa chance de que ele não se espalhe para outros órgãos.

*
Dez meses mais tarde...
 Feliz aniversário, querida! — Sua mãe abraçou-a com tanta força que ela quase arrancou o soro gotejando de Vanessa em sua veia. Gina tinha trazido um balão gigante, que flutuava atrás dela e alcançava quase toda a sala.
Obrigada, mãe. E por falar nisso, estou fazendo dezenove anos, não seis. — Ela olhou diretamente para o balão em forma de bolo de aniversário.
Eu não me importo. — Gina beijou a sua bochecha e lhe entregou a corda do balão, esperando totalmente não apenas Vanessa aceitá-lo, mas ficar feliz com isso. A situação toda era tão ridícula que Vanessa não pode deixar de rir - ela estava em um quarto de hospital se recuperando de sua segunda cirurgia do fígado, enquanto sua mãe trouxe balões para celebrar o seu décimo nono aniversário. Uma pessoa mais fraca poderia ficar deprimida por toda a situação, mas não Vanessa. Ela sempre tentou encontrar escondido o positivo por trás de toda as merdas da vida. Neste caso, ela tinha sua mãe com ela, ela ainda estava viva, apesar de ter feito duas cirurgias no ano passado e, mais importante, ela tinha um plano para os próximos meses. Um plano que ela havia compartilhado apenas com Ashley.
Agora, tudo que Vanessa tinha a fazer era dar a notícia a sua mãe.
— Olhe, mamãe, eu preciso falar com você sobre algo. — Gina vincou as sobrancelhas em uma linha preocupada.
 Não é nada ruim, eu prometo. É muito bom, na verdade. — Ela sorriu e sua mãe relaxou e seguiu o exemplo. Reunindo toda a sua coragem, Vanessa deixou escapar seu plano em uma única respiração: — Eu quero passar o verão em Gênova com Ash.
Gina recuou como se a acertassem com um taco de baseball. Não era a reação que Vanessa queria ver, mas era a que ela esperava.
 Antes que você discorde, deixe-me tentar convencê-la, ok?
Gina balançou a cabeça sem dizer uma palavra e Vanessa aproveitou o choque momentâneo de sua mãe. — Eu estive dentro e fora de hospitais nos últimos dez meses. Eu tive a metade do meu fígado retirado e, embora desta vez os médicos estejam muito otimistas de que removeram todos os tumores, eles não podem ter certeza. Em outros três meses, eles me querem aqui novamente para um check-up e, se o câncer estiver de volta...
A voz de Vanessa tremia e ela fez uma pausa para se recompor. — Há uma  boa  chance de que eu acabe na lista de espera de doadores.
Vanessa mordeu os lábios e deu a sua mãe a oportunidade de dizer alguma coisa, mesmo que nenhuma dessas informações fosse nova para qualquer uma delas. Quando Gina não falou, Vanessa continuou:
Agora eu me sinto melhor do que me senti nos últimos meses. Eu sei que a maldita coisa se foi, pelo menos nesse momento. Apesar disso, eu não posso fazer planos para o futuro: ainda não. Eu preciso ir para algum lugar onde ninguém me conhece, onde posso relaxar e talvez até mesmo esquecer tudo isso por um tempo.
Ela fez um gesto em torno dela e sentiu uma lágrima rolar pelo seu rosto. Merda, eu me prometi que não iria chorar.
Em algum lugar que eu possa conhecer pessoas que não pensam em mim como a garota que perdeu seu pai e seu irmão e que agora tem câncer. Eu quero me divertir, mesmo que seja apenas por um par de meses.
Em algum momento, Ginacomeçou a chorar também, fazendo Vanessa se sentir incrivelmente mal. Ambas sabiam que tudo o que ela tinha dito era verdade, mas perturbar sua mãe era como esfaquear seu próprio peito com uma faca de cozinha.
Ok — disse Gina, e até conseguiu dar um sorriso quando ela apertou a mão de sua filha.
Ok? É isso? Após esse discurso? — As duas riram através de suas lágrimas, e Vanessa puxou sua mãe para um longo abraço.
                        Tudo o que você falou é verdade, querida — sua mãe começou, quando elas se separaram. — E eu acho que é uma ideia muito boa. Eu sei que você queria ir há um longo tempo, mas não perguntou porque pensou que eu iria ficar chateada. — Vanessa  abriu a boca para protestar, mas Gina levantou a palma da mão e a cortou. — Não   tente negar. Você estava brava com Niki quase tanto quanto eu. O que ela fez não foi justo - não apenas para mim, mas para você e Ash. Eu sei que você queria perdoá-la e visitar Ash, mas você sentiu como se você fosse me trair de alguma forma.
Como é que ela sabe exatamente como eu me sentia? Vanessa pensou e seus olhos devem ter refletido a sua pergunta, porque Gina continuou:
 Eu sempre sei como você se sente, querida. Você é tão forte e tão   responsável.Se não fosse por você, eu não sei se eu poderia ter...
   Não, mamãe, por favor. Não vá por ai. — Gina fechou os olhos para conseguir recuperar o controle de si mesma, antes que falasse.


Você tem que perdoar Niki. Eu perdoei, há muito tempo atrás. Essa era a sua maneira de lidar com a sua tragédia, assim como ficar em minha casa e reconstruir a minha vida para nós duas era o meu caminho.
 Por que você não falou com ela, então?
Eu não sei. Eu ainda não estou pronta, eu acho. E eu não sei onde sua cabeça está. Tenho medo de chegar até ela e ela me afastar novamente. Tenho medo de que eu seja um lembrete doloroso de seu passado, e talvez ela não queira ser lembrada disso.
Vanessa assentiu, entendendo completamente o ponto de Gina. Era um grande alívio saber que sua mãe tinha perdoado Niki; guardar rancor contra alguém era um fardo enorme e Gina não precisa de qualquer peso extra pressionando seu coração agora.
 De qualquer forma, sobre a sua viagem: Eu acho que é uma ideia maravilhosa. Enquanto Niki estiver de acordo com ela, é claro. Você tem que perguntar a ela. Se ela estiver bem com isso - eu estou.
 Você tem certeza? Você vai ficar bem aqui sozinha?

—  Eu acho que vai ser bom. Acho que precisamos de um tempo separadas, querida. Não leve a mal, mas nós estamos apoiando uma a outra há tanto tempo, que talvez seja a hora de descobrir se podemos caminhar por conta própria, por assim dizer.